Quem quer ser Primeiro Ministro?
Quem achava que o caos político do Reino Unido tinha terminado um dia depois do Brexit enganou-se profundamente. Depois da anunciada demissão de David Cameron, as coisas animaram, e não foi pouco. Afinal, quem recusaria a oportunidade de ser Primeiro Ministro por 4 anos sem ter de se sujeitar ao voto popular? O vídeo abaixo pode ser esclarecedor.
Em primeiro lugar, vamos a alguma informação de background. Com a demissão de Cameron, agendada para outubro, é necessário substituí-lo, tanto na liderança do Partido Conservador como na liderança do governo. Para tal, os que desejam substituir Cameron terão que anunciar a sua candidatura. Estando a lista de candidatos elaborada, cabe aos deputados conservadores eleitos escolher DOIS dos candidatos dessa lista para se defrontarem na Conferência do Partido, em outubro. Os dois candidatos mais votados terão a oportunidade de estender a sua campanha até à conferência de outubro. Os outros candidatos são descartados e impedidos de serem eleitos na conferência, em que será eleito um dos dois finalistas, numa votação que é aberta aos militantes.
Com David Cameron com os dias contados, e com a vitória do "Leave" no referendo, havia um candidato óbvio: Boris Johnson. O carismático ex-Mayor de Londres era apontado por todos como o provável futuro líder dos Conservadores, o provável futuro Primeiro Ministro. Só que a política britânica está numa de surpresas, e aconteceu algo inesperado... aconteceu Michael Gove.
Michael Gove, atual ministro da Justiça e companheiro de Boris Johnson na vanguarda da campanha pelo "Leave" , tem pregado algumas partidas aos seus "amigos" conservadores. Gove pregou uma partida a David Cameron quando, no início da campanha do referendo, o fez crer que não se empenharia na campanha pela saída do Reino Unido da UE. O ministro da Justiça acabou por ser uma das principais figuras do "Vote Leave". Hoje, Michael Gove surpreendeu todos mais uma vez. Quando todos esperavam que Gove fosse o responsável pela coordenação da campanha de Boris Johnson à liderança do Partido Conservador, e depois de ter dito umas semanas antes que não se sentia capaz de liderar o Partido, o sr.Surpresa decidiu retirar o seu apoio à candidatura de Boris, por considerar que o ex-Mayor não consegue unir o partido para uma liderança pós-Brexit, candidatando-se ele mesmo ao tão desejado lugar que estará vago em outubro. Como consequência, Boris Johnson afirmou horas depois, para choque de todos, que não seria candidato à liderança do Partido Conservador. Uma reviravolta incrível.
Assim, terminado o prazo para a apresentação de candidatura, temos cinco candidatos:
Theresa May
Ministra do Interior, fez uma campanha discreta pelo "Remain", o que não a prejudica muito na sua corrida à liderança do partido, sendo conhecido o seu euroceticismo moderado. Há quem lhe chame "A Margaret Thatcher do séc.XXI", o que, entre conservadores, é sempre bom. Tem feito um bom trabalho numa das maiores pastas do governo. É apreciada pelos deputados conservadores - que são maioritariamente a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia, tal como ela - tendo grandes hipóteses de chegar ao confronto final. Pragmática, já afirmou que não haverá segundas tentativas para que o Reino Unido permaneça na UE e já disse, também, que não haverá eleições gerais até 2020.
Michael Gove
O backstabber do momento, Gove, numa altura em que o Reino Unido deverá abandonar a UE, tem a vantagem de ser um célebre e empenhado eurocético. No entanto, duas facadas nas costas (a primeira a David Cameron, a segunda a Boris Johnson) num curto período de tempo retiram-lhe alguma confiança. Experiência e capacidade política são-lhe reconhecidas. Porém, os apoiantes de Boris não devem estar muito contentes com o comportamento de Michael Gove, e talvez não lhe deem o seu voto.
Andrea Leadsom
Deputada desde 2010, atualmente serve o governo como Ministra da Energia. Participou ativamente na campanha pelo "Leave", ao lado de Michael Gove e Boris Johnson. Surpreendeu pela positiva nos debates sobre o referendo em que participou. Clara, confiante, genuinamente a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, é vista com bons olhos pelo público conservador e não-conservador. Resta saber se tem o apoio dos deputados do Parlamento, que é essencial nesta primeira fase. Com a surpresa que foi a atitude de Gove, pode ser que Leadsom segure a maioria dos votos dos conservadores eurocéticos.
Liam Fox
Ex-ministro da Defesa (abandonou o cargo depois de alegações de que teria favorecido um amigo seu), já se tinha candidatado à liderança do Partido em 2005. Fez campanha pelo "Leave", tal como os candidatos Michael Gove e Andrea Leadsom. O seu envolvimento em escândalos enquanto deputado, como o "Escândalo de Despesas do Parlamento", ou enquanto Ministro da Defesa, aliados ao facto de já se ter candidatado ao cargo em 2005, não lhe conferem o caráter "refrescante" que a liderança do Partido procura. Não deve ter grandes hipóteses na corrida.
Stephen Crabb
Secretário de Estado para o Trabalho e as Pensões, foi apoiante do "Remain", tal como Theresa May. No entanto, não parece ser um candidato forte. Tão novo e já envolvido em polémicas, o deputado de 43 anos teve de negar que era homofóbico, dadas as suas ligações a um grupo de interesse religioso que, entre outras coisas, defende que a homossexualidade pode ser curada. As suas perspetivas de eleição também são reduzidas.
Vai começar, assim, a corrida à liderança do Partido Conservador. Uma destas 5 pessoas liderará o governo Britânico numa altura muitíssimo complexa. Theresa May e Michael Gove são os grandes nomes desta corrida, mas não me parece que Andrea Leadsom deva ser descartada tão cedo, principalmente porque se apresenta como uma alternativa íntegra e coerente às imprevisibilidades de Michael Gove. Esperemos para ver.
S.G.
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