Vamos falar de escândalos?
Começo pela reação positiva. A Chanceler alemã, Angela Merkel, no meio de tantas reações nervosinhas e rancorosas que pediam a saída IMEDIATA do Reino Unido da União Europeia, veio pedir calma, afirmando que é normal que a Grã-Bretanha demore algum tempo antes de formalmente abandonar a UE. Boa postura.
Falemos agora da reação de Martin Schulz. "Quem?"- Esta é a reação que provavelmente se tem quando se fala de um dirigente de uma das centenas de instituições desse monstro burocrático que é a União Europeia. Martin Schulz é o presidente do Parlamento Europeu, e tem sido uma personalidade bastante irritante para os que prezam a democracia. O membro do SPD alemão e do Partido Socialista Europeu tem sido uma das figuras da integração europeia. Volta e meia faz rondas pelo Continente a iluminar os iludidos, a informar os ignorantes de que há um paraíso democrático em Bruxelas, onde tudo é belo e harmonioso, onde todos somos europeus, amigos, de mãos dadas, cantando e rindo em direção à prosperidade. E QUEM NÃO CONCORDAR É FASCISTA! - Esta é a retórica de Schulz.
Ora, o sempre encantador Presidente do Parlamento Europeu veio, esta sexta feira, afirmar que achava "escandaloso" que o PM britânico não iniciasse de imediato o processo de abandono da União Europeia, e que, mais uma vez, o Continente inteiro estava refém das intrigas internas do Partido Conservador (isto porque Cameron pretende esperar até à Conferência do Partido Conservador, em outubro, para eleger o novo líder do partido e do governo). A esta gente de Bruxelas faz muita confusão respeitar a soberania de cada país. Infelizmente para Schulz, ainda (ainda!) não se atingiu a fase em que os Estados Unidos da Europa são controlados pelos 5 presidentes da União Europeia (e quem são estes senhores? Ninguém sabe...), não tendo os Estados-Nação qualquer autonomia. Martin Schulz terá que esperar um bocadinho mais...
A mim há coisas que me parecem bem mais escandalosas.
Acho escandaloso que se tenha caminhado de uma comunidade económica para uma união política e monetária sem o consentimento dos cidadãos europeus.
Acho escandaloso que se forcem segundas votações de referendos a Tratados, de forma a que estes, em vez de vetados, sejam promulgados pelas poucas nações que têm alguma coisa a dizer sobre o seu futuro.
Acho escandaloso que não haja UM ÚNICO elemento eleito na comissão europeia, o organismo que elabora as leis que se aplicam a todos os países da União Europeia.
Acho escandaloso o facto de o presidente do Conselho Europeu surgir do nada e ser-nos imposto como o político com mais influência sobre as nossas vidas.
Acho escandaloso o regime de exceção democrática da União Europeia, que se nos impõe como uma instituição defensora da democracia, sendo tão democrática quanto o regime que determina quem lava a loiça numa casa de machistas.
Acho escandaloso que o Presidente da única casa minimamente democrática da UE acuse de nacionalismo e fascismo qualquer intervenção crítica do funcionamento da União Europeia.
Acho escandaloso que os poderes daqueles que são democraticamente eleitos para o Parlamento Europeu sejam praticamente nenhuns.
Acho escandaloso o legado da União Europeia no setor primário de vários países europeus.
Acho escandaloso que haja cada vez menos soberania nacional e que a União Europeia se esteja a transformar num super-estado federal.
Acho escandaloso que uma decisão democrática e legítima seja vista com tanta hostilidade por gente tão poderosa e, pelos vistos, tão irresponsável.
Acho escandaloso o conjunto de intervenções de Martin Schulz sobre a União Europeia e a necessidade de se aprofundar a integração europeia, o que significa, em poucas palavras, mais soberania sacrificada, mais poderes entregues ao governo não eleito de Bruxelas.
Acho escandaloso o custo político associado ao benefício económico da atual União Europeia.
Acho escandaloso o facto de os tribunais nacionais serem subordinados a um Tribunal Europeu que, a cada ano, é mais poderoso.
Acho escandaloso ninguém saber quem é Martin Schulz e ele ser Presidente do Parlamento Europeu.
Acho escandaloso ninguém conhecer Donald Tusk e ele ser Presidente do Conselho Europeu.
Acho escandaloso o exagero de burocratas que se instalam na União Europeia a cada ano, sem haver hipóteses de serem despedidos...
Como está visto, se há coisas escandalosas que se passam na Europa, estão muito mais para os lados de Bruxelas do que para os de Londres. Martin Schulz deveria estar mais vezes calado.
O Reino Unido vai abandonar a União Europeia. Em termos económicos, em princípio esta não terá sido uma decisão benéfica, pelo menos a curto e médio prazo. Mas esta é uma decisão que faz todo o sentido, se considerarmos a vergonha democrática que é a UE. A organização política da União Europeia, essa sim, é escandalosa.
S.G.
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