O "Debate" do Referendo

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Ontem, houve mais uma transmissão televisiva  dedicada ao Referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia, que se realizará no dia 23 de junho. Ao contrário do que aconteceu com a transmissão da SkyNews nos dias 2 e 3 deste mês, o programa de ontem, transmitido pela ITV, contou com a participação dos representantes do "In" e do "Out" no mesmo dia, mas, para quem queria debate, isso não serviu de muito.

A ITV andou a anunciar que iria haver um debate "In" vs "Out". Neste caso, o representante do "In" voltaria a ser o PM, David Cameron, e o representante do "Out" seria Nigel Farage, o líder do UKIP (UK Independence Party), o partido da direita populista e nacionalista do Reino Unido, que tem tido cada vez mais adesão. Nigel Farage é por muitos considerado o responsável por haver este referendo no Reino Unido. Isto porque os sucessivos bons resultados do UKIP nas eleições europeias (recorde-se que, nas europeias de 2014, o partido de Farage ficou em primeiro lugar, superando o Labour e os Conservadores) foram exercendo uma forte pressão sobre o PM, que se viu forçado a prometer a realização deste referendo (acredito que um referendo sobre esta matéria não seja do seu maior agrado, sobretudo quando a sua própria liderança do governo e do partido pode estar em jogo).

Este "debate" (as aspas justificam-se, logo se saberá porquê) foi acompanhado de algumas desilusões... Ao tomarem conhecimento da existência deste programa televisivo, muitos quiseram que fosse Boris Johnson, e não Nigel Farage, o representante da campanha pelo Brexit. O argumento oficial era o de que Nigel Farage não pertencia à campanha "Vote Leave", a campanha oficial pela saída do RU da UE, pelo que não faria sentido ser o líder do UKIP o representante desta fação. Mas lá no fundo, aquilo que mais frustrou os críticos da presença de Farage no debate foi o desejo de ver, ao vivo, o mítico e potencialmente muito divertido debate "David Cameron vs Boris Johnson". David Cameron, Primeiro-Ministro do Reino Unido desde 2010, líder dos Conservadores desde 2005, enfrentaria o carismático e também conservador Boris Johnson, que tem sido o mais célebre opositor à liderança de Cameron. Teria sido bonito... Ficará para uma próxima vez, se próxima vez houver.

Outra desilusão foi o facto de o tão anunciado debate não ter sido um debate. Quem queria ter visto um confronto entre Nigel Farage e David Cameron ficou certamente descontente. Nigel Farage apareceu primeiro, respondeu a perguntas do público e foi-se embora. Só depois apareceu David Cameron, que fez o mesmo que Farage, e também ele foi embora, sem que tivesse havido um momento em que os dois tivessem aparecido simultaneamente. De debate teve pouco...

Terminado o programa, uns afirmam que David Cameron esteve melhor do que na semana passada, outros defendem que esteve arrogante e que não conseguiu responder às questões sobre a imigração; uns afirmam que Farage foi impaciente e agressivo com os membros do público que lhe fizeram perguntas, outros afirmam que o líder do UKIP foi frontal e que utilizou argumentos válidos, provando que a sua imagem de xenófobo, racista e intolerante não corresponde à realidade.  No fim, apesar de não ter havido debate, muitos atribuíram a vitória a Nigel Farage, que, segundo uma sondagem do Times, convenceu 63% dos indecisos, tendo o PM convencido apenas 29% dos inquiridos que estavam indecisos antes do "debate". Noutros meios, a vitória também é frequentemente atribuída ao célebre eurocético. Veremos se haverá consequências...
S.G.

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