O Chanfrado do Partido Trabalhista
Ontem, publicámos um artigo acerca das dificuldades por que o primeiro-ministro britânico está a passar, a que acrescento as greves dos chamados "junior doctors", que são contra as alterações feitas pelo governo aos contratos dos médicos britânicos. Parece-me, portanto, apropriado escrever sobre o "outro lado", mais concretamente sobre Jeremy Corbyn, o líder dos Trabalhista Britânicos.
George Orwell (um Socialista assumido) confessava que um dos grandes problemas do Socialismo era a sua propensão para atrair "chanfrados" que afastavam as pessoas mais sérias e razoáveis do Socialismo. Podemos dizer sem grandes dúvidas: Jeremy Corbyn é um chanfrado. Desde ter defendido que os comboios deviam ter carruagens onde só pudessem entrar mulheres, de forma a combater o assédio, até ter elogiado e agradecido a Hugo Chávez por ter demonstrado que "os pobres importam", são muitos os exemplos que provam que este líder é um caso especial, e com este adjetivo livramo-nos de ofender.
Apesar de tudo, os dois exemplos que dei provieram de situações anteriores à eleição de Corbyn como líder dos Trabalhistas. Agora, o partido anda a tentar controlar este outsider vindo da ala radical, e prova disso é a campanha que Jeremy está a fazer pela permanência do Reino Unido na União Europeia, ele que é claramente um eurocético. E não está a ser fácil fazer do Labour uma alternativa credível aos Conservadores quando o líder é Jeremy Corbyn. Em poucas palavras, as coisas também não estão fáceis para os Trabalhistas.
O que é que corre(u) mal ao republicano que não canta o hino nacional? As últimas eleições de 5 de Maio, cujos resultados foram pouco satisfatórios para quem desejava uma vitória clara dos trabalhistas, correu mal. Ainda no âmbito dos resultados eleitorais, a vitória emblemática e histórica de um moderado do Partido Trabalhista para a Câmara de Londres, que representa a outra fação Trabalhista, que volta e meia se opõe ferozmente ao radicalismo de Corbyn, correu mal. Também lhe corre mal o recente confronto com a BBC, confronto esse que talvez tenha levantado demasiado as águas, depois de o líder Trabalhista ter acusado a repórter de estar "obcecada em transformar boas histórias em pontos negativos" sobre ele. Mais do que se ter criado uma polémica incómoda, é capaz de se ter rompido a há-muito-falada inclinação pró-Labour da BBC, pelo menos enquanto Corbyn for o líder dos trabalhistas, e todos nós sabemos o poder que a comunicação social tem na sociedade.
O último caso que correu mal envolveu imigração e sindicatos, dois temas com que não se brinca. E Jeremy Corbyn não brincou, estou convencido, mas no Partido Trabalhista é muito difícil falar-se dos problemas da imigração em massa sem se ser chamado intolerante ou xenófobo, e também é difícil ir contra as vontades dos Sindicatos. Tim Roache, líder de um dos maiores Sindicatos do RU, desafia Corbyn a ser mais corajoso na questão da imigração, defendendo que o trabalhista deve dizer, claramente, que a grande maioria dos imigrantes que estão no RU trabalha e vive de forma decente. O que Corbyn disse ainda hoje foi que "estar preocupado com a imigração não é ser racista ou xenófobo". Corbyn não anda a seguir os conselhos deste sindicalista, mas terá mais oportunidades, isso é verdade. Jeremy Corbyn, não te estiques.
É verdade, as coisas não estão fáceis para David Cameron. No entanto, o conservador pode dar graças por ter na Câmara dos Comuns um "chanfrado", porque, com ele na oposição, Cameron poderá esticar a corda; com Corbyn, ela não rompe.
S.G.
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