4 milhões de exilados políticos (e um caso especialmente escandaloso)

Hoje já falámos das restrições à liberdade que o politicamente correto traz (ler aqui), mas o "País mais Livre do Mundo" tem mais falhas e a mais escandalosa é provavelmente a que eu vou tratar agora.
Quando pensamos nos EUA, normalmente pensamos nos 50 Estados que constituem a nação que domina sozinha a cena política internacional desde 1991, mas, ao longo dos anos, e devido às Guerras em que se envolveram no Pacífico e no Caribe, os Estados Unidos fora acumulando algumas ilhas que nunca se tornaram Estados nem foram incorporados. Estas ilhas são classificados como "territórios" e são habitadas por 4 milhões de pessoas, vivendo a grande maioria (3,6 milhões) em Porto Rico. Muitos americanos no "continente" tratam os porto-riquenhos como imigrantes, o que seria o mesmo que tratar uma pessoa natural do Ohio como um imigrante, estando esta na Pensilvânia. Mas esta é apenas a mais pequena das injustiças que estes povos sofrem. Nenhum dos territórios pode votar nas Presidenciais (só nas Primárias), nalguns territórios do Pacífico, as pessoas não têm os direitos de um habitante da metrópole, alguns até nascem sem direito à cidadania. Estes territórios têm presentes várias bases militares e, portanto, têm bastantes militares e veteranos que não têm os mesmos privilégios que os veteranos na metrópole. E para coroar toda esta falta de consideração, temos a representação no Congresso. Nenhum destes territórios tem direito sequer a um representante votante no Capitólio ( têm apenas um representante que observa as sessões e pode pedir a palavra). Isto apesar de Porto Rico ter mais pessoas que 20 dos Estados que têm direito a Senadores e Representantes.
Nem tudo é mau, porque os Territórios têm direito a um Governo local e a uma certa autonomia. O mesmo não se pode dizer do maior centro de decisão do mundo livre: Washington, District of Columbia. O D.C. foi criada para albergar os três órgãos máximos de Governo, fora da jurisdição de qualquer Estado (numa altura em que o Governo Federal tinha muito menos poder). Está determinado que D.C. é governada pelo Congresso, e ao longo dos anos, a população foi recebendo autonomia, podendo agora votar nas Presidenciais e eleger um Mayor que serve, mais ou menos, como um Governador. Só há um problema: Washington é uma cidade muito liberal, que costuma dirigir 80% do seu voto na Geral ou mais para o Partido Democrata. No entanto, todas as tentativas de alterações à legislação (orçamentos, reformas sociais, grandes obras públicas) têm de passar pelo Congresso, que, obviamente, não é tão liberal como a capital. A cidade também tem direito a um representante no Congresso que não vota, como os territórios, e a três votos de colégio eleitoral, como os Estados menos populosos ( equivalente a 2 Senadores e 1 Representante). É curioso que a cidade mais importante da "terra da liberdade e da oportunidade" não possa sequer decidir os impostos que cobra, sendo que tem mais pessoas que o Wyoming e o Vermont.
Estranhamente, não se vislumbra qualquer solução para este problema. Diria que o melhor para os territórios insulares seria juntar os do Pacífico ao Hawaii e os do Caribe à Florida. Mas porque não incluir dois novos Estados: D.C. e Porto Rico? Ou será que os EUA assumiram que "fecharam a loja" no que toca à inclusão de novos Estados?
De qualquer das maneiras, é muito mais fácil defender a inclusão dos Territórios que o contrário. Sendo que os novos "convidados" para a União seriam Estados bastante Democratas, o que não deve interessar muito ao Partido Republicano em termos de domínio do Congresso. Não deixa de ser mal pensado por parte dos Democratas desaproveitar esta oportunidade para controlar o Congresso.
Tinha era de se mudar a Bandeira.
João Jonet
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