Livrai-nos dos homens, Amén!

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Falta menos de um ano para Ban Ki-moon deixar o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas, como manda a tradição (o Secretário-Geral da ONU pode renovar o mandato indefinidamente, mas nunca um Secretário-Geral serviu mais do que dois mandatos). O ex-Primeiro-Ministro Socialista, António Guterres, avança com a sua candidatura, e, para já, enfrenta mais 7 candidatos, 4 dos quais são mulheres. E qual é o critério de seleção de que mais se fala por aí?...
Para já, um bocadinho de informação prévia. Há 5 grupos regionais (não-oficiais) da ONU: Grupo dos Estados da Europa Ocidental e outros Estados; Grupo dos Estados da Europa de Leste; Grupo da América Latina e Caraíbas; Grupo Africano e Grupo da Ásia-Pacífico. Desta vez, só há dois grupos representados na candidatura ao cargo de Secretário-Geral: o  Grupo dos Estados da Europa Ocidental e Outros e o Grupo da Europa de Leste. Ou seja, os 8 candidatos são todos de nações incluídas nos dois grupos acima mencionados.  Só mais um apontamento: na ONU, há uma certa tradição de rotatividade regional. Isto é, se o atual Secretário-Geral é Coreano, é pouco provável que o próximo seja, também, do Grupo Asiático. Deu-se, até, o caso de a China ter vetado a possibilidade de um terceiro mandato para Kurt Waldheim, por considerar que seria a vez de um representante do Terceiro Mundo ser eleito. Há, portanto, na ONU, esta tradição de rotatividade, até certo ponto compreensível. 
No entanto, ao ouvirmos e lermos o que se diz nos media acerca da eleição do próximo S-G da ONU, parece que o processo não é mais do que uma adaptação do famoso jogo "Quem é quem?". O raciocínio é o seguinte: pela rotatividade regional, é a vez da Europa; pela rotatividade dos pontos cardeais, é a vez da Europa de Leste; e, filtrando mais um bocadinho, pela rotatividade de género, é a vez das mulheres. Se isto fosse o estratagema encontrado para determinar quem lava a loiça na sede das Nações Unidas, nem era nada mau. O problema é que, ao que parece pelos comentários de muitos jornalistas, trata-se do principal critério (ou, pelo menos, do único de que se fala) para decidir quem será uma das pessoas politicamente mais importantes do mundo. E se, por uma questão de equilíbrio entre as regiões em desenvolvimento e as regiões desenvolvidas, ainda faz algum sentido que haja uma rotatividade regional (embora este critério não deva, de maneira nenhuma, justificar, per se, que um candidato seja impedido de ser reeleito), já não faz sentido continuarmos a frisar a importância das mulheres na política.
Só há (so há!) vantagem em haver mulheres na política, quando estas ocupam cargos anteriormente ocupados por homens menos qualificados do que elas. Até porque quem luta por esta causa do poder feminino, normalmente, cai facilmente na hipocrisia. Aqueles que exaltam as virtudes das mulheres na política, quando confrontados com os exemplos de personalidades como Margaret Thatcher, imediatamente respondem "Não, essa não conta!"(muito embora tenha sido ela a grande responsável pela salvação do "doente da Europa"). Os defensores da causa feminina idealizam a mulher-político como bondosa, cheia de virtudes, capaz de solucionar os mais graves problemas mundias graças à sua candura e compreensão. O que é verdade é que, de facto, a mulher é diferente do homem, mas, na política, está visto que as mulheres podem ser tão intransigentes, ou tão compreensivas, tão pacíficas, ou tão violentas, tão brilhantes, ou tão tacanhas como os homens. Não há nenhum defeito político inerente à testosterona, nem nenhuma virtude exclusiva do estrogénio. Pelo menos que se saiba. Haverá, sim, algumas nuances na abordagem de algumas questões, mas nada que justifique a escolha de uma mulher para o cargo de Secretária-Geral, apenas pelo facto de ser mulher. 
Resta o valor simbólico presente na escolha de uma mulher para a ONU. Mas bom, mesmo bom, era que fatores como a competência, a eficácia, ou o sucesso no exercício de funções políticas anteriores à candidatura, fossem considerados. Mas isso, se calhar, é pedir de mais. Interessa é se o candidato urina de pé ou sentado.
S.G.

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