Irlanda e o fenómeno das eleições inconclusivas

Nos últimos tempos alguns dos países europeus mais afetados pela crise (Portugal, Espanha e Irlanda) realizaram eleições legislativas que surpreenderam muitos analistas. Principalmente, porque foram ganhas com alguma margem pelos partidos forçados a aplicar medidas de austeridade, e não pelos partidos que estiveram na oposição (muitos de índole social-democrata), que tinham tutelado estes países quando neles despontaram os primeiros problemas económico-financeiros.
As forças socialistas/trabalhistas da Europa Ocidental têm sido consistentemente derrotadas nas urnas nos últimos dois anos, por vezes de forma clamorosa, como foi o caso das últimas eleições do Reino Unido. A esquerda europeia está desorientada, "como é possível que os neo-liberais levem sempre de vencida a verdadeira voz do povo?" devem perguntar-se os principais estrategas da esquerda democrática. A explicação mais lógica parece ser a associação destes partidos com a crise.
No meio de tantas derrotas, estes movimentos encontram-se perdidos, barafustam, choramingam, criam situações de instabilidade política desnecessária e até se veem a celebrar as vitórias do Syriza à falta de melhor.
Em Portugal, os resultados deste desespero e desnorte ideológico deram numa "geringonça", em Espanha ainda não sabemos no que dará o atual impasse governativo (ler aqui) , não havendo dúvidas de que Pedro Sánchez quer muito imitar António Costa.
Se olharmos para a situação irlandesa sem muito conhecimento de causa, reparamos que os dois maiores partidos a emergir desta situação estão no mesmo espectro político (centro-direita), para além disso, o partido que está no Governo e que geriu o "pós-crash" da economia irlandesa conseguiu resultados muito positivos: maior crescimento económico da Europa no último ano: 8%. O problema é que estas duas forças de centro-direita têm um ódio histórico que remonta à fundação do país e, portanto, nunca sequer consideraram qualquer apoio mútuo, tendo-se reunido pela primeira vez em quase 100 anos de história muito recentemente. Apesar dos bons resultados, o partido do Governo perdeu 16 deputados, tendo o partido que o apoiava, o Partido Trabalhista, seguido o exemplo dos seus camaradas europeus e perdido 26 dos seus 33 deputados. Parece lógico que estes dois partidos enterrem o "machado de guerra" e formem uma solução governativa que seria a mais normal em termos ideológicos.
Veremos se não são ódios antigos a provocar outra situação de instabilidade política na Europa, pois estes impasses já começam a cansar.
João Jonet
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